Em meio a esses artistas, surgiram os "estátuas", que pintam o corpo de prata e se prostam parados em alguma pose até que alguém coloque dinheiro na caixinha ao lado para que possam então mover-se. Permanecem assim horas seguidas, desafiando o cansaço e o famoso frio da Suiça Brasileira. Os turistas, encantados, apinhocavam-se em volta, aplaudiam e muitos contribuíam para maravilhar-se com a plasticidade do movimento exato e harmônico do artista que, encontrando uma nova posição, voltava a ser uma estátua. Alguns mais curiosos ficavam observando por vários minutos tentando descobrir como os homens de prata conseguiam respirar.
Agora, é mês de novembro. Está o verão bem mais próximo que o inverno. A Serra da Mantiqueira não é mais um grande foco de turismo. A época é propícia para se curtir as praias, o litoral. Campos do Jordão vive meses de pouco movimento, restrito a alguns finais de semana e feriados. Os artistas que no mês de julho tiveram o Capivari, centro turístico jordanense, como palco, estão agora em outros locais, à procura de movimentação. Contudo, em uma noite de sábado, observa-se uma imensa asa angelical com um suporte sobre o qual está posta uma pequena estátua, pintada de prata e vestido de túnica branca. Os olhos que se movimentam curiosos, as pernas que às vezes titubeam, a respiração não disfarçada, denunciam que, por baixo da tinta e da túnica, há apenas um menino, uma criança.
Foi observando o trabalho dos estátuas da alta temporada, que meninos jordanenses se decidiram a fazer o mesmo. Alguns trabalhavam já em outras atividades na rua, como engraxate, "olhadores de carro" ou mesmo pediam dinheiro. Agora a rotina de sextas e sábados é trabalharem de "anjos", como são chamados popularmente. "É um trabalho artístico, nós vimos, gostamos e resolvemos fazer também", diz o garoto F.R., com a respiração ofegante no intervalo curto de descanso.
Antes de ser anjo, F.R engraxava sapatos. O dia todo carregava sua caixa de madeira nas costas e interpelava turistas - às vezes davam-lhes notas de cinquenta reais, outras vezes cinquenta centavos. Agora, acha que o que faz é mais valorizado pelos outros, mais "bonito". Com apenas 14 anos ele sente orgulho de sua nova profissão, considera-se um artista. "Todo artista tem o seu palco, o nosso é aqui na rua", completa o anjo antes de voltar a sua imobilidade.
Além de F.R., outros garotos também dedicam-se a ser anjos no capivari. Sem intervenção de qualquer adulto, eles distribuem-se em vários pontos e turnos, para que não haja concorrência. Em cada ponto ficam dois garotos, quando um está parado, o outro fica cuidando do dinheiro e auxiliando no que for necessário – dando retoques na pintura prata do rosto do anjo, por exemplo. Geralmente, iniciam o trabalho no começo da tarde e fazem turnos de seis horas cada um, com apenas um intervalo para cada.
O companheiro de F.R no ponto em frente ao Shopping Calil é L.S. Aos dezesseis anos, ele nunca havia trabalhado antes, só estudava. Resolveu trabalhar de anjo quando F.R., que estuda na mesma escola, o convidou para ajudá-lo. Às sextas-feiras, antes do meio-dia, os dois já estão montando todo o aparato: a faixa de "colabore com o anjo", as roupas, as enormes asas de madeira. "Foi presente do moço de são paulo que era estátua na temporada", afirma L.S, enquanto dá um retoque na pintura das asas. Segundo F.R, o artista paulistano o incentivou a fazer o mesmo que ele e lhe presenteou com a asa.
Até agora, polícia ou juizados de menores não fizeram objeção nenhuma ao trabalho dos garotos. Os comerciantes do centro turístico de Campos do Jordão também nunca incomodaram o trabalho dos anjos. Apesar de não serem, obviamente, tão profissionais quanto os artistas de rua que os precederam, os anjos-meninos suportam o cansaço e até o tédio do fraco movimento dos finais-de-semana comuns. Esperam feriados ou congressos que tragam turistas para vê-los, aplaudí-los e pagar-lhes o esforço.
Sábado de chuva, lá estão eles sentados na beira das vitrines esperando a oportunidade de trabalhar. Talvez nunca façam parte da realidade desse paraíso da classe alta, mas com certeza estão aprendendo a ser os seus próprios anjos da guarda.
Por: Mauro Ribeiro
Foto: Mauro Ribeiro |